By Infecto Facto on May 20, 2012
tu que encerras a bondade
e és dono da verdade
abre a saudade
fecha a porta ao desespero
tu que queimas a senilidade
não controlas a vontade
deixa que voe, enfim
espera que passe
o meu azar, esse
foi navegar na liberdade
foi encontrar a minha maldade
foi virtude do desinteresse
nova alternativa nova ilusão
nova criatura vazia de razão
eis que amanhece no lago de ti
nova aventura que eu não li
nestes que passam contrapondo
na raíz do procura que eu respondo
vê a noite milenar
ouve o incessante desvarío resvalar
mortes
vindas do poente
pragas que nos levam a gente
rogo-te
camaleão público
some-te do nosso tempo
repete:
capataz
queira deixar-me em paz
raquítico
volta-te a sentar
o único milagre
é o que viver nos traz
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By Infecto Facto on May 19, 2012
inércia gaivotas solidão
inércia devota escravidão
meu deus pelo amor da santa
meu deus com rancor que encanta
meus filhos deixai-me só
meus filhos restarei só pó
marinheiros viajantes tortura
marinheiros de alma madura
beleza no mar desconhecido
incerteza do que terei sido
sombra alta e sem paixão
sombra de um corpo sem emoção
estrela vaga celeste
estrela guia do agreste
mágoa passageira da vida
mágoa companheira querida
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By Infecto Facto on May 9, 2012
Tudo com enormes fardas de rum
vagueávamos
noite dentro
e os lixeiros vinham atrás de nós!
Tudo com enormes pedras de erva
cantávamos
dançávamos
a noite não tinha fim.
fomos irmãos e amantes
fomos perfeitos uns para os outros
fomos e queríamos ser
sempre assim como antes
Todos sumimos, mas
Porém
Todos se foram embora
Perdidos na vida dos outros.
Fomos fumaça
Nuvens cheias de estática
Cúmulos de energia
Fomos latência
quantas vezes dormimos todos
juntos
sem roupa nem pudor
quantas vezes fodemos
sem ter medo, sempre sem ter medo
O Sol, o odiado Sol
Punha-se ao contrário
Sobre as nossas débeis cabeças
Deitadas no jardim. Nascia,
Diziam os infiéis. Morria,
Dizia eu. Ninguém queria saber.
Um por um partimos.
Sós, nunca acompanhados
No meio de estranhos
Nunca acompanhados.
só nos partilhávamos a nós
próprios
ninguém mais nos conhecia
ninguém queria conhecer
ninguém queria saber
Da droga que resistia no sangue
e das ideias ainda mais
os homens teatrais, convenceram-nos de tal
que achamos por bem
nunca mais querer mais
vil experimentação – vil mortalidade
já não existia dilema
vil criadagem
da alma em si pequena
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By Infecto Facto on April 25, 2012
Odeio a minha cara.
Odeio como lhe sinto as expressões e tenho consciência de cada músculo. Tenho consciência, porém não controlo. Odeio-a tão rígida, não sei o que fazer com ela. Por vezes é como se não fosse minha.
— Rigoroso sentido esse, o Imutável. Querias parar de sentir, pois bem, corta-a fora. E deixa essas expressões medonhas irem com ela. Espera, depois, que nasça uma nova, perfeita para o uso que lhe dás. E o sentido, diz-me se se foi embora.
— Não tens, no rosto, as linhas puras que pretendo alcançar. Transformas-me em algo que eu não sou. Roubas-me de mim pela crueza da tua expressão. Não obedeces aos teus sentidos! E, no final, troças de mim levando-me a pensar que és o que não és?
O que dizias do Imutável? A razão deixou-o há muito. Vil criatura do céu e do inferno. O sentido é que perdeu a direcção! Sentimentos parados no tempo. Ó pele, porque não me pertences como vejo nos meus semelhantes? Traz-me a expressão, devolve-ma à cara. A alma está cansada de ser traída. Músculos teatrais, senti — por uma vez que seja! Representam sempre o texto de outro autor que me é estranho. E vós, ossos, não fosse precisar de sustentar os orgãos dos sentidos, e partia-vos com um pedregulho encontrado na praia. Talvez assim a vossa estrutura se parecesse mais comigo.
Anseio, enfim, libertar-me desta coisa que é a carne. Deixa-la toda a apodrecer e gozar, assim, a vontade que é a minha.
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By Infecto Facto on April 23, 2012
No meu sonho o meu amigo estava sempre presente.
Criticava-me, eludia-me, entretinha-me, nas mais diversas situações.
Lembro-me de quando me disse que eu nunca fazia nada por ele; e não era verdade.
Agora sou eu que escrevo.
— O meu amigo foi o meu maior inimigo. Acusou-me dos piores defeitos.
Quis matá-lo.
O meu amigo era eu.
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By Infecto Facto on April 20, 2012
leva-me para o deserto
arrasta-me até à serpente primitiva
deserta-me de ti
a morte está perto
desfaz-me do corpo que me assombra
e deixa queimar a alma
é preciso que vás com calma
esperam-me
os mundos mais mágicos
na mais fria noite
tenho olhar na mente
lambe a criatura venenosa
ama a dor que há em ti
sente o ardor que eu senti
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By Infecto Facto on April 4, 2012
Vi, por uma frincha
O futuro
Vi como passava
Diante dos meus olhos
Sem se deter para mim
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By Infecto Facto on March 28, 2012
Tenho a boca cheia de dentes horríveis. Os molares, apodrecidos e enterrados em pus. Os caninos afiados, lascados e assimétricos. Os incisivos recortados do uso como canivetes suíços.
Não os reconheço. São, sem dúvida, dentes a mais. Fazem-me a boca inchada e pesada e dorida. E parece que nunca param de crescer.
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By Infecto Facto on March 26, 2012
Odeio a poesia que rima
Ela entorpece-nos o cérebro com o seu ritmo programado
É parcial ao idioma
Que é uma invenção humana
O conceito é escravizado pelas palavras
É pintar a preto e branco
E é-me mais difícil chegar-me a ela
Parece-me, de qualquer forma, decoração
Construida para ser bela
Ora, a poesia precisa de cores
A alma não é binária
E o verso tem vida própria
[como pode provar este último]
Como pode o poeta enterra-lo
Num dicionário de sinónimos?
Esse é trabalho dum maestro
Que elabora uma sinfonia
Que procura o tom de cada elemento
Pois as palavras podem ser dissonantes
A ideia também o é
E a substância vive noutra dimensão.
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By Infecto Facto on March 24, 2012
Faz do meu rio
O teu curso a tua esteira a tua vitrine
Eu que de quem sou nada sei
Te ofereço o meu percurso
Sê-me e eu sou contigo
A tua alma agora é minha
Ouve a água a correr
Ao ritmo do teu coração a bater
Sente o ar infecto
Entranhar-se no teu ser
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